Flores de Sangue - Vol. 1



A Rosa que Floresce do Sangue: Parte 1

Autor Desconhecido

Comentário do Editor:
Esta é uma história tida por muitos como um conto de ficção escrito para atrair as atenções
para Freya, a deusa do amor e da beleza. Se ela se originou dos registros
de um aventureiro, ou de uma canção triste dos bardos, não temos
confirmação. Seu título é desconhecido, e o escrito original não foi encontrado.
Este conto é sobre dois grupos que lutavam pela deusa Freya contra Odin, e narra
as proezas de uma heroína escolhida pelos deuses, de forma similar à nossa papisa, escolhida
por Freya. A religião é um tema predominante nesta obra, tornando-a significativa aos leais
seguidores de Freya. Decidimos preservar o que resta desta história
por ela ter um valor cultural grande demais para ser esquecida, e nos esforçamos para escrever
uma reconstituição fiel da versão original. Esperamos que nossos leitores
apreciem nosso esforço por atingir uma precisão histórica, e aproveitem esta história.
- Departamento Editorial

1.
Esta terra, antes coberta por um gramado muito verde, agora expelia fuligem
para os céus. Era difícil saber se as nuvens negras que cobriam o céu eram cinzas da guerra ou
sinal de chuva. Uma espessa neblina cinza que cobria o solo parecia fluir por entre
a massa de soldados envolvidos na batalha intensa. Eles brandiam suas armas com
um fervor assassino, pisando sobre os companheiros caídos cujos corpos haviam se tornado
parte da camada de fuligem que cobria o solo.

Os seguidores de Freya acreditavam que sua causa era justa: eles vieram a esta terra,
trabalharam para torná-la habitável, mas os pagãos nativos eram teimosos demais para dedicar
suas vidas e sua lealdade à amável e generosa deusa. Naturalmente, os nativos tinham
certeza que haviam sido enganados, indignados com esses fanáticos religiosos que haviam
acolhido em suas terras, que agora tinham a audácia de forçá-los a se converterem à sua estranha
religião. Embora os seguidores de Freya e os nativos houvessem convivido pacificamente
por algum tempo, suas crenças conflitantes tornaram a guerra inevitável.

Uma trilha de vermelho vivo serpenteava pelas planícies cheias de fuligem, o sangue marcando o avanço
dos soldados. Os trovões e as nuvens escuras no céu sobre
os corpos espalhados pareciam protestar contra a violência fútil dos soldados que
lutavam.

"Vai chover logo?"

Um jovem sozinho respirou fundo enquanto ajustava o punho da espada. Por quantos dias
ele estava lutando? Quando a guerra ia terminar? Ele se encostou em uma carreta quebrada,
e olhou para o céu, procurando uma resposta. Tudo o que ele via eram nuvens negras, agourentas.

"Acho que... Vai chover."

^fa8072"Senia, me desculpe. Eu juro! Por quanto tempo você vai continuar brava comigo?"
"Humpf!"
"Olhe, Senia. Esta rosa acaba de florescer, como eu prometi. Vê? Essas pétalas estão bem
vermelhas. Como o rubor do seu rosto, Senia."
Khras estendeu a rosa a Senia, que estava encostada na janela. Ela o encarou com desprezo,
suspirando. Mais uma resposta ressentida.
"Você se atrasou de novo. Olhe para o céu."

Mais uma vez, o céu se abriu antes que Khras pudesse chegar até Senia. Era a
quinta vez que Khras não conseguia levar para Senia uma rosa recém-florida em um dia de chuva,
uma tarefa quase impossível naquela colina árida. Definitivamente, Senia pedia demais
dele. Mesmo que fosse praticamente impossível, mesmo que ele desperdiçasse a preciosa água
para cultivar aquelas rosas, mesmo que sua família e o povo da cidade pensassem que ele estivesse louco,
ele havia feito a promessa a ela há dois anos.^000000

O clangor de armaduras tirou Khras de seu devaneio. O suor frio que corria em
seu rosto e o arrepio na espinha indicavam que havia um inimigo próximo.
Ele tentou reduzir a respiração, apertou por instinto a adaga presa em seu punho esquerdo,
e então desembainhou a espada silenciosamente. O barulho das espadas chegou mais perto
da carroça em que Khras estava apoiado.

Ele estava tão perto! Khras devia surpreendê-lo e atacar primeiro? Ele o havia avistado à distância,
e vinha matá-lo? E se fosse apenas um mensageiro? E se ele só viesse dizer que
a guerra havia acabado e que ele não tinha mais que se esconder? Espere, não é possível! Khras
se retesou enquanto os pensamentos pulsavam em sua mente, em sincronia com o coração acelerado.
A guerra havia perdido seu significado para Khras depois de dias enfrentando soldados ensandecidos
se matando sem motivo. Todos pareciam estar gritando o nome do
seu deus, mas era apenas uma matança desenfreada. Esqueça os ideais, as promessas dos deuses.
Eles eram animais agora, apenas lutando para sobreviver. Não era à toa que Khras se sentia amargo.

Ele se esgueirou lentamente por trás de uma placa de madeira que havia caído da carroça.
O barulho do metal parou, Khras prendeu a respiração e saiu lentamente
de trás de seu esconderijo. Ele avistou um homem grande que estava procurando
ao longe, mas que parecia não ter visto Khras. O homem então se
abaixou até o buraco criado pelo impacto da carroça caída. Khras correu até
o homem, segurou sua garganta, e encostou a ponta da adaga
contra ela.

"Aliado ou inimigo?" Khras sussurrou, rouco.
"Por que você mesmo não decide isso?"
A adaga de Khras se enterrou o bastante para deixar um filete de sangue correr pela lâmina.
"Responda! Aliado ou inimigo?"
"Por que você não me matou logo?"
Os olhos de Khras se alargaram com a pergunta do homem. Ele poderia simplesmente ter cortado a garganta, mas
não sabia por que hesitava tanto em matar o homem. Esse absurdo o deixou com vontade
de rir bem alto. Além do mais, matar esse homem não ia garantir sua sobrevivência na guerra.
Depois de uma pausa longa e pensativa, Khras respondeu com sua própria pergunta.
Por que eu deveria matar você?"
O homem bufou e encolheu de leve os ombros.
"Acho que sei o que quer dizer. Não sei como responder. Essa guerra está sendo travada
em nome dos deuses, mas se você quer vencer, você tem que matar seu inimigo mais do que
ele mata você. Acho que essas são as regras."
O homem parou, respirando fundo. Khras não podia ver o rosto do homem, mas podia ver que
ele estava se esforçando para não soltar o riso. Khras o apertou mais.
"Vamos. Continue falando."
O homem deu de ombros, e gentilmente tirou a adaga de sua garganta com o dedo.
Khras não o deteve, e esperou pelas palavras do homem.
"Para matar o inimigo, você precisa distingui-lo dos amigos. É por isso que temos
uniformes, para impedir erros tolos como esse. Não concorda, Khras?"
Khras se sobressaltou ao ouvir seu nome, e deu uma olhada melhor em seu
prisioneiro. Khras pôde ver pela armadura que ele era um
mercenário. O pequeno símbolo sagrado pendurado do seu cinto marrom, manchado de
lama e sangue, indicava que ele estava lutando pela deusa Freya. Certamente eles estavam
do mesmo lado, mas como esse homem sabia o nome de Khras? O homem se virou lentamente
e sorriu gentilmente para Khras.
"Bem, como ela está, hein?"
"Que... Quê?"
Khras reconheceu o rosto de Beren, e correu para abraçá-lo.
"Pela Deusa! O que foi que eu fiz? Quase matei você, Beren!"
Beren deu um tapinha nas costas de Khras, tentando aliviá-lo da culpa por tentar
matar um amigo. Beren olhou para Khras por um instante, e então começou a escavar
o buraco usando uma placa de madeira arrancada da carroça. Quando o buraco ficou
fundo o bastante, ele aplainou o solo em volta, e cobriu o buraco com a carroça.
Agora tinham o esconderijo perfeito.

Khras olhou para Beren enquanto alisava a lâmina da adaga. Enquanto Beren se sentava
perto dele, perguntou em voz baixa:
"Como sabia que era eu?"
Beren sorriu. "Você é o único que conheço que usa uma arma na mão esquerda
em vez de um escudo. Tive sorte – se eu não soubesse disso, você já teria
me matado. Já faz alguns anos que a gente não se vê, não é? Queria que
a gente tivesse se reencontrado em outras circunstâncias."
" é..."

O céu estava nublado demais para se saber se era dia ou noite. O clamor dos gritos e das armas
ficou mais distante, e deu lugar ao rugido dos trovões e relâmpagos
nas nuvens.
"Acho que vai chover logo." Khras murmurou.
Beren assentiu, e olhou para o céu.
"Acho que a batalha logo vai terminar. De um jeito ou de outro."
"Parece que nunca termina. Está uma loucura lá."
Khras parou, pensativo. "Beren... Você teve sorte de não estar na
pior parte."
"Mas... Eu estava no 3o. esquadrão."
" é? Bem, eu..."
Khras olhou para Beren por um instante, e então olhou para o céu.
"Fui eu quem incendiou as planícies enquanto fugia para as cercanias. A plantação
tinha um brilho dourado no sol do outono. Agora veja. Reduzi tudo a uma terra arrasada.
Eram minhas ordens, era nossa estratégia... Mas também foi nossa perda.
Era tão bonito, e eu arruinei tudo."
"De qualquer maneira, acho que tivemos sorte de não lutar com aqueles malucos da colina do outro lado.
Eles ainda estão lutando, mesmo sem chance de vencer.
Uma total idiotice."
Khras piscou quando os primeiros pingos de chuva caíram em seu rosto. Os clarões dos
relâmpagos e o ressoar dos trovões vieram com força total, abrindo caminho na chuva torrencial.
A chuva surrava o chão, espalhando as cinzas, dissolvendo a poeira em um
vermelho vivo. Beren assistia à chuva em silêncio. A cor o lembrava de
rosas, e uma antiga lembrança veio a ele.
"Khras? O que aconteceu com ela? Sen... Era o nome dela, não era? Aquela com quem você fez
uma promessa estranha."
"O nome dela era Senia."
"Senia, isso mesmo. A que fez você prometer levar rosas frescas na chuva?"
Khras ficou um pouco confuso. Aqueles tempos felizes estavam tão distantes. Ele sorriu para
si mesmo. A guerra não era tão importante, no final das contas. Ele se sentia melhor pensando no que
realmente o fazia feliz. Os pensamentos de Khras se voltaram para
a bela Senia, de pele tão alva e fresca quanto as pétalas de um lírio.

- Continua

*Esta é uma obra de ficção; qualquer semelhança com personagens e eventos reais é mera coincidência.